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Dia 15 do Rock in Rio além de Lady Gaga

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Coluna O Cair da Agulha: Lutre – Apego (2017)

Por Alan Bonner | @Bonnerzin

O ventre deu fruto. Robusto, sujo e barulhento, “Apego” é o primeiro álbum da Lutre, banda de Goiânia fundada em 2015. As nove faixas são composições de Marcello Victor (guitarra e vocal), Jefferson Radi (bateria) e Chrisley Hernan (baixo), co-produzidas pelos três juntamente com Gabriel Ventura, Larissa Conforto e Hugo Noguchi, membros da carioca Ventre. E com padrinhos e madrinha como estes, o resultado não podia ser diferente: um ótimo disco, de uma banda que ainda não tem o mesmo apelo de público das que surgiram no underground nos últimos 2-3 anos, mas que certamente conquistará muitos ouvidos com esse álbum.

A primeira impressão que se tem ao ouvir “Apego” é que, mais do que na produção, o trio do Rio de Janeiro influenciou bastante a sonoridade da banda goianiense, especialmente nos arranjos. A guitarra lembra bastante a de Ventura, tanto nos acordes quando nos efeitos utilizados. Mas as interseções param por aí, e o grupo exibe, com o passar das faixas, a sua cara: um hard rock “abrasileirado”, meio alternativo, meio experimental, com influências que vão de Caetano a Radiohead, indo lá fora buscar um pouco de BadBadNotGood e voltando para beber em fontes como Xóõ e Lupe de Lupe. O spoken word de “Salvador” certamente tem a aprovação de Vitor Brauer.

O que mais marca o disco é o fato de que todas essas influências resultam em músicas totalmente distintas uma das outras, o que gera um álbum plural, algo muito positivo e relevante para uma banda tão nova. Sinal de que estamos presenciando só uma ponta desse iceberg de criatividade e que existe a capacidade de se explorar muitas outras sonoridades nas músicas que virão depois destas. O não repetimento de fórmulas se estende às letras, que abordam temáticas que vão desde inquietações agoniantes sobre o que está em volta em “Mudo” até a nostalgia de um amor passado em “Graça e Poesia”. Em suma, são expressões das angústias e prazeres de três jovens nascidos numa cidade quente, em todos os sentidos possíveis que quem vive, já presenciou ou sabe histórias das consequências do encontro do rural com o urbano que é Goiânia Rock City.

A Lutre dá um grande passo para conquistar mais ouvintes e palcos com “Apego”. Um álbum de sonoridades ambiciosas, que traz algo novo prestando reverência a quem o formou e que também aponta direções. E acima de tudo um trabalho maduro, que escancara a qualidade dos envolvidos em sua construção. Trabalho para ser ouvido várias vezes para que todas suas várias nuances sejam devidamente absorvidas e degustadas. Enfim, um discaço, daqueles feitos para jogar na cara do/da amigo/a que diz que “não tem mais música boa no Brasil”.


Ouça “Apego”:

Resenha: BadBadNotGood + Gabriel Royal @Varanda Vivo Rio

Por Alan Bonner | @Bonnerzin

Você que começou a ler esta resenha agora provavelmente se recorda de La La Land, filme de 2016 dirigido por Damien Chazelle e que chegou a ganhar o Oscar de melhor filme por um minuto ou dois. No filme, o personagem Seb, interpretado por Ryan Gosling, tem um sonho: salvar o jazz. Ele defende um argumento no filme de que as pessoas não vão mais ouvir jazz pelo jazz, e sim por tudo que está no seu entrono. As festas, as pessoas, a bebida, as drogas… O jazz é só uma trilha sonora para tudo isto, quando ele deveria ser a razão de um evento acontecer, o motivo que fez as pessoas quererem sair de casa. E que também ele está sendo “apropriado” pelo mercado da música e se tornando mais pop, fugindo totalmente de sua essência.

Mas o que La La Land e a história de Seb tem a ver com os shows de BadBadNotGood e Gabriel Royal, que rolaram no último sábado (06/05/2017) na Varanda do Vivo Rio, em mais uma iniciativa da Queremos? Muita coisa. A começar pelo público, que não parecia nem um pouco interessado no que estava no entorno e vidrou os olhos em ambas as apresentações. Até Gabriel Royal, pouco conhecido no Brasil e que fez uma apresentação solo e muito intimista ganhou atenção de grande parte da plateia. Carismático até a última nota e a última gota de bebida em seu copo, Royal fez um set curto, porém bastante sólido, para uma plateia que incluía ilustres como MC Marechal (pode perguntar pro Aori, que inclusive esteve presente e foi repórter do Queremos na ocasião). Um excelente cartão de visitas do cara que estreava em terras brasileiras naquela noite.

Gabriel Royal @2017

Depois, a catarse. Quem olha para Leland Whitty (saxofone e flauta transversal) Alex Sowinski (bateria), Matt Tavares (teclado) e Chester Hansen (baixo) sem saber do que os quatro são capazes com seus instrumentos e em conjunto, provavelmente vão acha-los antiquados, incapazes de entreter a pessoa de riso mais frouxo de um lugar. Talvez Alex consiga, pela exuberância de seu moicano platinado e o sorriso cativante. É justamente ele que assume as conversas com a plateia logo no início do show, chamando o público para fazer parte da apresentação com eles. Como se precisasse. Já nas primeiras notas, o BBNG ganhou o jogo, o público e a bela noite que fazia no Rio de Janeiro. Alex não se dava por satisfeito, e sempre pedia aplausos para seus companheiros de banda a cada passagem mais elaborada que cada um deles fazia. E era impressionante como, com o passar das músicas, o público, por conta própria, ia na palma, no pulo, no gritinho, acompanhando o ritmo da música. Sério, há tempos eu não via um público indo “na palminha” com tanta vontade e sem ninguém pedir. Quem chamava eram as próprias músicas, com partes que eram impossíveis de ficar parado ou de não bater palma. Mérito dos quatro músicos, de técnica e criatividade ABSURDAS. Há muito tempo eu não saía de um show tão satisfeito com o que foi apresentado artisticamente. Showzaço, empolgante e emocionante, pra entrar naquelas listas de melhores do ano em dezembro (alô Prêmio RIFF!).

O jazz, talvez, já está salvo. Mas não no lugar e da forma que costumamos o encontrar, nos bares com a ambiência do estilo e os rostos consagrados. E sim nas estações de metrô de Nova Iorque, com um jovem negro e seu cello. Ou com quatro rapazes brancos do sul do Canadá e a paixão deles pela cultura hip hop. Seb, com certeza, iria se emocionar se estivesse naquela noite, com aqueles artistas e aquele público. E poderia ficar tranquilo com seu legado, mesmo com um Oscar escapando das mãos.

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