Arquivo da tag: Felipe Ernani

O Underoath ousou, mas (infelizmente) não deu muito certo

Por Felipe Ernani

Underoath sempre foi daquelas bandas com fãs extremamente fiéis. Em todos os sentidos: começou e acabou como uma banda gospel, falando explicitamente sobre religião em quase todas as suas letras; apesar disso, o público-alvo nunca se resumiu a esse nicho e a banda conquistou uma legião de fãs fanáticos.

Em 2015, depois de dois anos em hiato, o UØ voltou à atividade, mas apenas para shows. No entanto, o inevitável aconteceu: em fevereiro de 2018, anunciaram que lançariam um novo álbum. A obra em questão, Erase Me, foi lançada no dia 06 de abril.

Mas já no lançamento do primeiro single, a excelente “On My Teeth”, o disco (e a banda) começou a se rodear de polêmicas. Logo no primeiro verso, aparece a frase “I’m not your fucking prey” e, pela primeira vez na carreira da banda, lançavam uma música com o selo explícito. Isso foi motivo para os fãs fiéis (os religiosos, nesse caso) se revoltarem com o direcionamento da banda  —  no Twitter, o baterista Aaron Gillespie os respondeu dizendo basicamente que “com o tanto de coisa errada no mundo, essa deveria ser a menor preocupação de vocês”.

Mas não parou por aí. Algum tempo depois, entrevistas com a banda mostravam claramente que os membros (especialmente Spencer) estavam cada vez mais afastados da religião e a letra de “On My Teeth” passava a fazer cada vez mais sentido. Após a divulgação da capa do disco, uma estátua quebrada de um anjo, o hype se tornou real.

Mas, nessa expectativa do que seria talvez um disco cheio de sentimentos mais mundanos, cheio de raiva e rancor com a fé, o novo trabalho do Underoath decepciona.

“On My Teeth” é a única faixa que traz à tona as características caóticas e belas que sempre fizeram parte do Underoath. Existem alguns outros bons momentos: “No Frame” e “In Motion” são músicas interessantes   ou pelo menos com trechos interessantes. De resto, o disco soa como um lançamento genérico da Fearless Records misturado com um pouco do Sleepwave  —  o projeto solo do vocalista durante o hiato do  UØ  —  enquanto a banda tenta dar o mesmo “passo à frente” que o Bring Me the Horizon deu anos atrás pra se afastar do metalcore.

O Underoath realmente não teve medo de arriscar, tanto nos temas abordados quanto na musicalidade. A ousadia de se afastar da temática religiosa sem medo da reação do público é louvável. Porém, musicalmente, o disco perdeu a sonoridade inexplicavelmente única da banda e se tornou, infelizmente, mais um álbum genérico em meio a tantos outros do gênero.

Anúncios

Por que não respeitamos o funk?

Por Felipe Ernani

Nos anos mais recentes, o funk brasileiro se estabeleceu de vez como a música das pistas de dança pelo Brasil todo. Hoje, faz sucesso tanto nas festas de onde se originou — os famosos bailes funks — quanto entre as celebridades e alta sociedade do país.

Mas, ainda assim, perdura a marginalização do gênero e o preconceito com os artistas deste. Algumas pessoas ainda insistem em agir como se só ouvissem funk de forma irônica. Outros ouvem e gostam, “mas só em festa”. Respeitar o gênero ainda é muito difícil. Por quê?

Pouco a pouco, os argumentos vão caindo. Não por boa vontade do público que é contra ele, mas porque os artistas têm se esforçado e investido cada vez mais e o resultado é palpável.

O funk deixou de ser música (exclusivamente) da favela. Passou a ser um patrimônio cultural brasileiro exportado para outros países — claro que o primeiro exemplo que vem à cabeça é o de Anitta, que desde o início da carreira sempre exaltou a cultura do funk e recentemente o exportou (de forma mais compreensiva para o exterior) com “Vai Malandra”.

Mas não é só a Anitta. Mesmo dentro do Brasil, cada vez mais artistas são influenciados diretamente pelo funk carioca. O BRAZA, banda formada por 3 dos 4 integrantes do extinto Forfun, tem influências claríssimas do gênero que serão expostas para o Brasil e o mundo quando a banda subir no palco do Lollapalooza, no domingo (25). E o próprio Forfun, no seu disco de despedida, Nu (2014), não apenas se mostrou influenciado pelo funk como o homenageou e falou sobre ele na música “O Baile Não Vai Morrer.

Um dos principais argumentos de quem se posicionava contra essa cultura era a “falta de qualidade” nas músicas produzidas. Aí, recentemente, aparece o MC Fioti com “Bum Bum Tam Tam, usando um sample da “Partita em Lá Menor de Bach em cima de um beat e transformando uma das melodias mais “requintadas” da música em uma “flauta envolvente”. Ou o MC Livinho, que era violinista de igreja, e hoje em dia compõe músicas extremamente melódicas e ricas em detalhes como “Fazer Falta. Ou até mesmo o MC G15, que no seu hit “Deu Onda” faz uma quebra de melodia e harmonia que é pouquíssimo usada na música pop.

Não à toa, MC Fioti foi mais um que exportou sua canção. “Bum Bum Tam Tam” recentemente ganhou versão internacional com participações de nomes estrangeiros conhecidos, como Future e J Balvin.

E não são só as músicas: recentemente, uma amiga que está em Portugal mandou uma foto de um cartaz mostrando que o MC Kevinho vai se apresentar por lá em breve. Kevinho, inclusive, é um dos nomes que mais ajudou nessa “explosão” do funk.

O garoto de Campinas teve seu primeiro hit com “Tumbalatum” e esperava-se que, como a grande maioria dos outros MCs, o sucesso seria passageiro. Mas ele (e sua equipe) soube se estabelecer e lançar hit após hit: “Olha a Explosão”, “Encaixa”, “O Grave Bater”, “Rabiola”…

E, parando pra analisar, todos os hits de Kevinho seguem uma fórmula parecida; no entanto, todos têm detalhes que os diferenciam, mesclam o funk com algum ritmo diferente, trazem alguma participação de um artista de outro nicho, usam algum instrumento que não é da linguagem comum do funk, e isso transforma cada uma dessas músicas em muito mais do que só uma melodia grudenta.

Mas agora chegamos no ponto crucial do começo do texto: com tudo isso, por que o funk ainda é marginalizado e ainda sofre preconceito no Brasil, se até fora do país o ritmo já é aceito e amado?

A resposta não está tão longe. O “brasileiro médio” — nesse caso, o público não marginalizado — não consegue aceitar a fluidez dos movimentos artísticos. Não consegue ficar em paz sabendo que o seu amado rock e a sua querida MPB estão ficando obsoletos e cedendo espaço para o funk, para o rap/hip hop, e para os gêneros que buscam a cada dia se inovar mais. Mais do que isso, não entendem que a função da música não é eleger o melhor guitarrista do mundo, é fazer o ouvinte sentir algo, e isso o funk tem feito muito bem. Há muito a aprender com o funk brasileiro, e quem se recusa a aceitá-lo só vai ficando cada vez mais atrasado.