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Muito mais do que parece: Sing é uma homenagem à paixão por cantar

Por Guilherme Schneider

No finalzinho do ano passado (mais precisamente 22 de dezembro) estreou nos cinemas brasileiros o longa de animação Sing – Quem Canta Seus Males Espanta, dirigido por Garth Jennings – o mesmo de ‘O Guia do Mochileiro das Galáxias’. Pai de filha pequena que sou fui assistir hoje e não me decepcionei nem um pouco.

Antes de mais nada não se iluda achando que Sing é meramente um filme infantil. Aliás, em pleno 2017 já é hora de assimilar que animação não é apenas ‘coisa de criança’. A história é na verdade uma grande homenagem à paixão por cantar.

E é fácil entender. O enredo é pontual e dialoga direto para um público que cresce vendo os reality shows como os principais celeiros de talentos, vide a imensa repercussão de programas como o The Voice, American Idol, X Factor, SuperStar, etc.

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O pontapé inicial da história gira em torno do coala (todos personagens são animais antropomorfizados) Buster Moon, que tenta salvar da iminente falência o teatro que herdou de seu pai. A solução encontrada para aumentar as bilheterias é um concurso de canto. Moon sugere um prêmio de US$ 1000, mas graças a um erro de sua (maravilhosa) funcionária iguana a oferta aumenta cem vezes – e atraí a fauna toda.

Daí em diante o que se vê são nada menos do que 85 canções. Indo de Beatles à Lady Gaga, de George Michael à Gipsy Kings, de Ed Sheeran à João Gilberto. Destaques para as versões de ‘I’m Still Standing‘, de Elton John, ‘My Way‘, de Frank Sinatra, e ‘Shake It Off’, de Taylor Swift.

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Os personagens são bastante carismáticos, muito em parte pelas vozes dos dubladores. A maioria já consagrada no cinema, como o coala Buster Moon (Matthew McConaughey), a porca-espinho Ash (Scarlett Johansson), a porquinha Rosita (Reese Witherspoon), o ratinho Mike (Seth MacFarlane) ou o gorila Johnny (Taron Egerton). A versão dublada também surpreende, com participações de cantoras como Wanessa Camargo e Sandy.

A produção da cada vez mais ascendente produtora Illumination vale a pena, especialmente para fãs de reality shows musicais – aqui no Canal RIFF não é diferente. O grande destaque é para a seleção da trilha sonora (link acima para o álbum). Sing é um programão para a família toda, independente de idades. O filme tem seus momentos cômicos, bem dosado com os emocionantes. Ah, e tem tudo para se tornar uma série. Sem contar que vem com tudo para abocanhar prêmios de animação e trilha sonora.

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Resenha: Tiago Iorc leva ‘Troco Likes’ aos cinemas

Por Natalia Salvador | @_salvadorna 

O quarto CD da carreira de Tiago Iorc, ‘Troco Likes’, vem mostrando para o público uma nova fase do artista. Com letras em português, o cantor afirmou, em diversas entrevistas, o desejo de se aproximar dos fãs brasileiros. No filme, Tiago explica essa necessidade de se sentir em casa no seu país e, fazendo um gancho ao nome do disco, em estar conectado com as pessoas daqui. Não podia ter dado mais certo.

Carregado de significados, Troco Likes trás em suas letras e melodias todo esse querer de ser gostado. E parece que os brasileiros tornaram a vontade do cantor realidade. Depois de rodar o país inteiro em 2015 e se apresentar em diferentes cidades, Tiago decidiu fazer um registro dessa nova fase de sua carreira. Escolheu Belém para ser protagonista de seu filme por motivos pessoais e, cá entre nós, de estética, já que o Teatro Gasômetro encaixou perfeitamente para esse novo desafio.

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Filmado todo em plano sequência – um show a parte para quem gosta de cinema e fotografia – Troco Likes ao vivo é uma experiência. Quem assiste consegue se sentir literalmente no meio do show, aquele convidado especial e com visão mais que privilegiada. Com uma excelente produção, repertório todo em português e muito talento, Tiago segue o filme com uma narrativa emocionante e um show apenas voz e violão – como costumam ser a maioria de suas apresentações.

E mesmo os saudosistas, que insistem em dizer que bom mesmo era Tiago Iorc cantando em inglês, se rendem à sua poesia e irreverência. Com direção do próprio brasiliense e produção em parceria com Felipe Simas, o filme é um lindo registro do grande sucesso pop que é Tiago. Eu não posso afirmar quanto aos outros telespectadores, mas eu amei te ver!

OPINIÃO: Do lado de fora do muro de Roger Waters

Por Thadeu Wilmer

Como já foi dito, na última terça-feira, dia 29 de setembro, Roger Waters foi às telonas ao redor do mundo com a exibição única da que promete ser a última remontagem de seu aclamado espetáculo The Wall – remontagem esta que possuiu um único objetivo: o de ser desmontada, destrinchada, explorada até seu último tijolo.

Foi a primeira vez que assisti a um filme com um prólogo. Antes da exibição, o ator norte-irlandês Liam Neeson nos contou acerca de sua experiência transformadora com a obra, que lhe caiu como uma luva no violento contexto separatista de seu país à época – afinal, isolamento não é o único dos temas centrais de The Wall, dividindo esse posto com a guerra.

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Isso fica nítido logo na primeira cena: Roger, no cemitério militar da comuna italiana de Anzio, onde está localizado o monumento a Eric Fletcher Waters, seu pai, tocando no trompete para um campo de lápides o tema de “Outside The Wall“, que compõe o início da primeira faixa da versão de estúdio do álbum, “In The Flesh?“, dá o tom do que estaria por vir ao longo dos próximos intervalos entre as músicas do show.

Do brusco corte ao início de fato da primeira faixa até os agradecimentos finais, a película é recheada de cortes para momentos importantes da vida de Roger Waters, transformando-se ali de mero autor em eu-lírico e contando a história de como derruba, diariamente, seus muros. Da primeira leitura da carta que sua mãe recebeu avisando-a da morte do marido à primeira visita ao túmulo de seu pai e seu avô, os tijolos vão sendo removidos, um a um, quase que num tutorial ou manual de instruções, a fim de dar exemplo a todos que têm muros a serem derrubados.

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Após a exibição do concerto, que se encerra com Roger no mesmo cemitério do início, tocando a mesma música do início, mas num ponto mais específico – o memorial de seu pai -, Roger tenta uma última vez derrubar a muralha mais difícil de sua vida: o Pink Floyd. Sentado na mesa de um bar reservado com Nick Mason, baterista da banda, eles respondem a perguntas enviadas por fãs de diversas partes do mundo, num curto trecho chamado “The Simple Facts”.

Perguntas de diversas naturezas, sobre os mais variados temas permearam essa descontraída conversa, desde o show que havíamos acabado de desfrutar até o turbulento relacionamento de Waters e Gilmour. As respostas, muitas vezes imprecisas ou incompletas – afinal, apesar de não aparentarem, estamos falando de dois jovens rapazes na casa dos setenta -, revelaram um tom bem-humorado e sem mágoas.

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Apesar de sabermos que nem Roger Waters, nem David Gilmour – que vem ao Brasil em dezembro com a turnê de seu novo álbum, “Rattle That Lock” – estão interessados em cruzar a fronteira, é bom saber que, ao menos aparentemente, esse muro – construído com a fama, o sucesso e o dinheiro de um mal-praticado Dark Side of the Moon – não mais segrega de rancor duas das mentes mais privilegiadas da arte.

Roger Waters e seus últimos tijolos em documentário com exibição única nos cinemas

Por Thadeu Wilmer

No dia 29 de setembro, o ex-baixista e compositor majoritário do Pink Floyd, Roger Waters, apresenta seu mais novo longa-metragem, o documentário/show “Roger Waters – The Wall“. O trailer do filme (cujo link pode ser acessado ao final do texto) apresenta uma intermitência de cenas de show, no palco, com cenas externas de uma entrevista aparentemente reveladora sobre os mistérios dessa peça fundamental da arte contemporânea. Infelizmente, nada é mencionado quanto ao filme de 1982, dirigido por Alan Parker e contando com as animações perturbadoras de Gerald Scarfe e a atuação ácida de Bob Geldof no papel de Pink; no entanto, a última turnê mundial de “The Wall”, de 2011-2013 (cuja gravação também estará acessível ao final do texto), mostrou que a tecnologia ajudou – e muito – a manter a essência da obra-prima pelos palcos mundo afora.

Com diversos artifícios que podem ser percebidos ao longo do show e uma iluminação impecável, o passar dos anos trouxe ao espetáculo mais tecnologia, mais capacidade de captar a essência do conceito, e mais sabor da militância política de Roger Waters, que não tem pudor algum de esconder o que pensa durante o espetáculo visual. A resposta ao verso “Mother, should I trust the government?” (“Mãe, devo confiar no governo?” em uma tradução livre) estampando no muro “No fucking way” (“Nem fudendo”, nos shows feitos em terras brasileiras); as projeções durante “Run Like Hell” e a sequência “Vera”/”Bring The Boys Back Home”; e a própria faixa inédita “The Ballad of Jean Charles de Menezes”, que faz alusão ao caso do rapaz brasileiro que foi assassinado injustamente pela Polícia Metropolitana de Londres no metrô em 2005 por ser confundido com um terrorista.

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Espera-se, porém, que o documentário trate não apenas do viés político que a turnê tomou, mas também (e, para alguns, principalmente) do lado artístico e conceitual do álbum/longa-metragem enquanto conceito e obra de arte. Sabe-se, segundo declarações do próprio Roger Waters em entrevistas, que o gatilho foi a irritação com a plateia de Montreal em 1977, que o levou a cuspir em um fã enquanto pedia para que o público parasse de gritar e soltar fogos de artifício, durante uma turnê chamada “In The Flesh” (“Em Carne E Osso”, em uma tradução livre) – que acabou dando nome às duas faixas que tratavam mais incisivamente do tema de “culto de personalidade” no próprio álbum “The Wall”.

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Mas o que há por trás disso? Quais foram as principais inspirações de Roger Waters para desenvolver toda a alegoria do muro e da solidão para justificar sua incapacidade de lidar com o sucesso e seus percalços – para o bem ou para o mal? Quão autobiográfico é o conceito do personagem e a história de sua vida, e a quem mais ele se refere – em outras palavras, a pergunta que nunca calará: “Which one’s Pink?” (“Qual é o Pink?”, em uma tradução livre)? Como ele chegou à concepção da pedra fundamental do Rock Progressivo conceitual?

Só derrubaremos, enfim, esse muro no dia 29 de setembro.

Trailer do filme “Roger Waters – The Wall”:

Show da turnê “The Wall” (2011-2013) de Roger Waters: https://vimeo.com/61949297