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RESENHA: “Circo Voador, A Nave” – na qual você deve embarcar (de novo!)

Por Guilherme Schneider I @Jedyte

Quem é do Rio de Janeiro e costuma ir a shows certamente tem uma opinião formada sobre cada casa de espetáculos. “Gosto mais dessa”, “Aquela é ruim de chegar”, “Detesto a acústica daquela”. Costumo ouvir muito mais elogios sobre o Circo Voador do que críticas. Principalmente de quem não vê o local como uma simples casa de shows.

O lugar tem história. Tanta, mais tanta, que precisou de um documentário e um livro para reunir parte delas: “Circo Voador, A Nave”, que estreou nesta sexta-feira (23) nos cinemas cariocas.

O Canal RIFF foi convidado para acompanhar de perto a pré-estreia do filme dirigido pela estreante diretora Tainá Menezes. Em pouco mais de uma hora e meia o filme nos afunda em uma densa viagem sonora e afetiva.

Impossível não lembrar de shows marcantes por lá, especialmente se você também for aqui do Rio.

O primeiro show que fui na vida foi lá: o animado Rotnitxe, dia 28 de junho de 1994. Só sei a data porque fui ao Circo assistir o empate entre Brasil e Suécia (1 a 1) na Copa do Mundo de 94. Depois do jogo, o show, em um Circo roots – uma época provavelmente com uma democracia mais anárquica na casa.

A verdade é que o Circo Voador já passou por várias fases, desde 1982 (ano em que nasci) quando ‘pousou’ no Arpoador. O filme mostra a vocação polivalente do espaço desde seu DNA. Um lugar que era ‘point de doidão’, cresceu e se firmou na Lapa. Aliás, transformou a cara da Lapa, como contam os depoimentos do longa.

E, por falar em depoimentos, o destaque do filme são as vozes de quem ajudou a escrever a história de lá. João Gordo, Tom Zé, Marcelo D2, Marcelo Yuka… histórias maravilhosas! Além de depoimentos gravados em imagens raríssimas, como de Tim Maia – um habitué daquele palco. Há também um rico apanhado de imagens raríssimas – como Caetano Veloso cantando com Cazuza, por exemplo.

Certamente você também deve ter alguma história do Circo Voador. Eu mesmo carrego no supercílio uma cicatriz de lá (por conta de um mosh dado durante o show da Bakuhastsu em 2007). Inesquecível.

JedyteEsse “caos” único do Circo Voador ficou marcado na minha cara

Essa permissividade para o público invadir o palco, dar moshs, e protagonizar rodas homéricas, fez do Circo um lugar único. Um canto onde até assistir do lado de fora valha a pena – “vi” o lendário show do Franz Ferdinand em 2006 assim, debaixo dos arcos.

Nesse ponto o documentário peca um pouco – mas com justificativas! Bandas gringas não liberaram imagens de seus shows por conta da burocracia de muitas gravadoras. Os custos aumentariam muito, e a produção preferiu focar no nacional. Justo. Ainda mais para uma produção 100% independente, feita ao longo dos últimos anos.

Da vocação de espaço polivalente, que abriga projetos sociais diversos, ao espírito de amplificador de ideias. O Circo sempre estará lá (mesmo que tentem derrubá-lo desde sempre), para “aplacar seus demônios”, como definiu Tom Zé, o dono das falas mais interessantes.

O filme é obrigatório para você, que já curtiu algum show lá. E, acredite, já ouvi várias vezes a frase “esse foi o melhor show da minha vida”, ao deixar o Circo – com a alma lavada, claro.


Confira as oito salas de cinema do Rio onde o ‘Circo Voador – A Nave” está em cartaz em sua primeira semana:

  • Estação Net Barra Point – Sala 1 (Barra da Tijuca)
    14:50 | 18:50
  • Estação Net Rio – Sala 1 (Botafogo)
    14:30 | 18:50
  • Cine Museu da República (Catete)
    16:20 | 20:00
  • Odeon (Centro)
    18:20
  • Estação Net Gávea – Sala 1 (Gávea)
    21:40
  • Ponto Cine (Guadalupe)
    14:00 | 18:00
  • Candido Mendes (Ipanema)
    14:10 | 18:10
  • Cine Santa (Santa Teresa)
    15:10 | 19:10
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Notícias

Roger Waters e seus últimos tijolos em documentário com exibição única nos cinemas

Por Thadeu Wilmer

No dia 29 de setembro, o ex-baixista e compositor majoritário do Pink Floyd, Roger Waters, apresenta seu mais novo longa-metragem, o documentário/show “Roger Waters – The Wall“. O trailer do filme (cujo link pode ser acessado ao final do texto) apresenta uma intermitência de cenas de show, no palco, com cenas externas de uma entrevista aparentemente reveladora sobre os mistérios dessa peça fundamental da arte contemporânea. Infelizmente, nada é mencionado quanto ao filme de 1982, dirigido por Alan Parker e contando com as animações perturbadoras de Gerald Scarfe e a atuação ácida de Bob Geldof no papel de Pink; no entanto, a última turnê mundial de “The Wall”, de 2011-2013 (cuja gravação também estará acessível ao final do texto), mostrou que a tecnologia ajudou – e muito – a manter a essência da obra-prima pelos palcos mundo afora.

Com diversos artifícios que podem ser percebidos ao longo do show e uma iluminação impecável, o passar dos anos trouxe ao espetáculo mais tecnologia, mais capacidade de captar a essência do conceito, e mais sabor da militância política de Roger Waters, que não tem pudor algum de esconder o que pensa durante o espetáculo visual. A resposta ao verso “Mother, should I trust the government?” (“Mãe, devo confiar no governo?” em uma tradução livre) estampando no muro “No fucking way” (“Nem fudendo”, nos shows feitos em terras brasileiras); as projeções durante “Run Like Hell” e a sequência “Vera”/”Bring The Boys Back Home”; e a própria faixa inédita “The Ballad of Jean Charles de Menezes”, que faz alusão ao caso do rapaz brasileiro que foi assassinado injustamente pela Polícia Metropolitana de Londres no metrô em 2005 por ser confundido com um terrorista.

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Espera-se, porém, que o documentário trate não apenas do viés político que a turnê tomou, mas também (e, para alguns, principalmente) do lado artístico e conceitual do álbum/longa-metragem enquanto conceito e obra de arte. Sabe-se, segundo declarações do próprio Roger Waters em entrevistas, que o gatilho foi a irritação com a plateia de Montreal em 1977, que o levou a cuspir em um fã enquanto pedia para que o público parasse de gritar e soltar fogos de artifício, durante uma turnê chamada “In The Flesh” (“Em Carne E Osso”, em uma tradução livre) – que acabou dando nome às duas faixas que tratavam mais incisivamente do tema de “culto de personalidade” no próprio álbum “The Wall”.

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Mas o que há por trás disso? Quais foram as principais inspirações de Roger Waters para desenvolver toda a alegoria do muro e da solidão para justificar sua incapacidade de lidar com o sucesso e seus percalços – para o bem ou para o mal? Quão autobiográfico é o conceito do personagem e a história de sua vida, e a quem mais ele se refere – em outras palavras, a pergunta que nunca calará: “Which one’s Pink?” (“Qual é o Pink?”, em uma tradução livre)? Como ele chegou à concepção da pedra fundamental do Rock Progressivo conceitual?

Só derrubaremos, enfim, esse muro no dia 29 de setembro.

Trailer do filme “Roger Waters – The Wall”:

Show da turnê “The Wall” (2011-2013) de Roger Waters: https://vimeo.com/61949297