Resenha: Elza Soares @ Caixa Cultural Brasília

Por Tayane Sampaio

No primeiro final de semana de abril, Elza presentou Brasília com o seu espetáculo. Após duas sessões no sábado (01), A Mulher do Fim do Mundo voltou ao palco da Caixa Cultural Brasília, no domingo, e cantou para um público ansioso. A grande fila de espera para as possíveis desistências já mostrava o quão especial seria a apresentação que estava por vir.

Um pouco depois das 19h e dos três sinais que anunciam o começo da apresentação, a ficha técnica do espetáculo foi narrada, como de costume. Em seguida, as cortinas se abriram, revelando um palco cheio: Elza Soares, soberana, acompanhada de Guilherme Kastrup (bateria); Rodrigo Campos, (guitarra e cavaco), Rovilson Pascoal (guitarra e violão); Marcelo Cabral (baixo, synth e violão de 7 cordas); e Gustavo da Lua (percussão).

Elza Soares @2017

Imponente, na versão voz e emoção, assim como no álbum, Elza deu boas-vindas ao público com “Coração do Mar”, poema de Oswald de Andrade musicado por José Wisnik. A música de abertura dá a tônica de todo o show: cru, politizado, realista, brasileiro, de arrepiar da cabeça aos pés; apresentado por uma mulher, negra, de origem pobre, que sabe muito bem o que está cantando e falando.

Logo em seguida a banda dá o ar da graça, para a execução da faixa título do álbum. Os músicos, excelentes, abrilhantam ainda mais o desabafo de Elza, mas, o tempo todo, fica bem claro que sua voz é o principal instrumento do grupo, que transita com facilidade entre momentos de melancolia e euforia.

Guilherme Kastrup @2017

O show é, como um todo, emocionante, mas tem alguns momentos marcantes, cheios de significado, como em “A Carne”, “Maria da Vila Matilde” e “Pra Fuder”. Além de cantar as canções, que por si só já são fortes, Elza dá recados importantes sobre racismo, violência contra a mulher e sobre a liberdade sexual feminina.

Antes e depois da apresentação, conversei com várias pessoas, que circulavam perto da entrada do teatro. Eu queria conhecer o público, que era bem diverso, então fiz várias perguntas. É o seu primeiro show da Elza? Como está a expectativa? O que você achou do álbum “A Mulher do Fim do Mundo”? E por aí vai… Mas, teve um depoimento que me deixou emocionada.

Conversei com a Rosana Castro (29), antes e depois do show, e, no final, perguntei qual foi a música que mais a emocionou. A resposta foi “então, eu não esperava… na verdade não foi a música, porque eu já ouvi a música muitas vezes. Mas, ela repetia a palavra ‘negra’ e cada vez que ela falava a palavra ‘negra’ é como se ela fosse quebrando uma parte de mim, assim. Eu não tava esperando, eu não tava esperando mesmo. Foi essa parte da música (A Carne) que, eu não sei… aconteceu alguma coisa ali. Foi incrível!”

Rosana traduziu bem o sentimento. É isso! A voz de Elza entra na pele, cutuca as feridas e nos transforma. Você entra no teatro esperando só mais uma apresentação musical, mas sai de lá com um exemplo vivo de força, perseverança e empoderamento. Não é só um show, é uma experiência de vida.

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Quando o show termina, você consegue entender toda a cenografia de palco. Elza está apenas ocupando o lugar que lhe é de direito: o trono da música brasileira.

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