Entrevista: A saga fanzineira de Márcio Sno

Por Ricardo Caulfield

A internet não acabou com os fanzines. Os corajosos resistem, dedicando às suas paixões, como rock, games ou hqs, tempo para imprimir os seus jornais, muitas vezes em tiragens artesanais. Márcio Sno, também zineiro de longa data, já lançou três documentários sobre tema e colocou no mercado, em 2015, mais um valioso instrumento para os pesquisadores sobre o assunto: o livro “O universo paralelo dos zines”. Ele conversou conosco sobre o livro, os docs e projetos para 2016!

Capa versão final

Depois dos documentários, escrever um livro sobre o tema é uma proposta arrojada. Como surgiu a ideia?

Na verdade, a escrita do livro veio antes dos documentários. Iniciei uma pesquisa independente a partir de 2005, quando lancei a cartilha “Fanzines de Papel”. Passei então a ficar fissurado por tudo que falasse sobre zines: livros (nacionais e importados), artigos, monografias e, em um momento, achei diversos documentários gringos sobre o assunto. Aí passei a procurar algum que falasse essencialmente sobre zines e não achei (mais tarde descobri que havia um) então, entrei em pânico: como assim não tinha documentários sobre zines no Brasil? Peguei uma filmadora emprestada e saí entrevistando zineiros do Brasil todo, com a ajuda de alguns amigos. Nesse meio tempo, continuei a pesquisa, mas só retomei a escrita em 2013, assim que lancei o último capítulo do Fanzineiros do Século Passado (nome da série de docs). Não diria que é uma proposta arrojada, foi tudo feito de forma intuitiva e descompromissada. As coisas fluíram naturalmente e eu apenas coordenei os pensamentos e fatos.

Você acha que, de alguma forma, o livro O universo paralelo dos zines e os filmes da série Fanzineiros do Século Passado se complementam?

Creio que sim. Embora eu tenha adotado um tipo de escrita na linha “bate papo no boteco”, creio que livro seja mais a teoria e os documentários sejam a história em carne e osso, contada por quem, de fato, entende do assunto: os zineiros. No livro, sou eu falando sobre o assunto e nos documentários, são os zineiros os porta-vozes. Curiosamente, não utilizei nada dos depoimentos dos docs no livro, exceto a frase de Elydio dos Santos Neto que abre o impresso.

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Na estreia, o doc conta um pouco sobre os zineiros antigos e como era produzir em uma realidade analógica pré-internet.

Como você começou a se interessar pelo universo dos fanzines?

Essa minha história com os zines já tem mais de 22 anos. Foi numa época que eu tinha contato com muitas bandas independentes e descobri. meio que sem querer, os zines em uma seção da revista Rock Brigade. Assim que os zines caíram em minhas mãos, foi automático: passei a produzir! Mas nesse meio tempo atuei em diversas frentes com os zines: zineiro, pesquisador, oficineiro e ainda dou assessoria para pessoas que pesquisam sobre o assunto.

Você acredita que muitos zines impressos ainda são produzidos nos dias de hoje?

Não só acredito, como recebo, troco e adquiro muitos zines hoje! Não dá para se comparar com a quantidade que tínhamos antes da chegada da internet, em meados dos anos 1990, mas temos um número bastante considerável de publicações circulando. A exemplo disso é só perceber a quantidade de feiras de publicações independente que rolam pelo Brasil e a quantidade de expositores que temos nessas feiras. O zine mudou, evoluiu, se transformou, chegando ao ponto de ficar até difícil de se conceituar um zine de uma outra publicação.

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Nesse capítulo mostra a importância dos zines para as bandas de rock independente até meados dos anos 90 e também as diversas iniciativas para estimular a produção impressa.

Qual foi a maior dificuldade para desenvolver o projeto do livro?

O atraso para o lançamento. Fechei o texto em 2013, pois havia uma expectativa de eu ser demitido do emprego e, com parte da indenização, lançaria o livro. Fui iludido com falsas promessas e, com isso, tive que adiar um ano o lançamento (só consegui ser demitido em dezembro de 2014). Porém, o espaço entre ter a grana na mão e o lançamento foi muito rápido, graças à incrível sintonia que eu a minha editora, Ana Basaglia (Editora Timo, que lançou o livro), que fez um excelente trabalho.

Uma inevitável questão é sobre o convívio entre publicações impressas e digitais. Alguns fanzineiros de ontem agora se dedicam a blogs…

Então, isso, na verdade, foi um boom. E tudo que explode, depois assenta. Os zineiros acharam na internet uma possibilidade mais barata para publicar suas coisas, lembrando que em meados dos anos 1990 tudo era muito difícil: as taxas eram caras, a “xerox” era vagabunda e tudo era muito mais lento. A internet então era uma salvação. Hoje há menos blogs ativos do que há 5, 10 anos, pois as redes sociais já dão conta. Eu mesmo não uso meu blog há anos, o que tenho que publicar, comentar etc e tal, eu boto no Facebook em álbuns de fotos, que transformei em postagens. O acesso é mais fácil e, consequentemente, há mais pessoas que acompanham o que ando fazendo. Eu nunca assumi um discurso de que o virtual vai matar o impresso ou o impresso é melhor que o virtual: cada um tem seus prós e contras, que não dá pra comparar. Posso te listar um monte de coisas. Tanto que no meu livro, eu preferi chamar o capítulo sobre o assunto de “Zines E Internet” e não “Zines X Internet”, mesmo porque acho esse discurso meio vazio hoje em dia, pois você pode muito bem trabalhar um a favor do outro.

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No último capítulo, é abordado o uso dos zines em sala de aula, como objeto de pesquisa, a influência deles na vida dos zineiros e uma pequena discussão sobre o futuro dos zines.

Por outro lado, na internet existe um manancial grande de oferta de sites e blogs, etc, então a concorrência é enorme e a pessoa fica à mercê de ser encontrada. Já com o zine impresso, o leitor recebe nas mãos… Ser impresso é uma condição para ser fanzine?

Pois é, creio que é essa infinidade de ofertas que está tornando os blogs menos acessíveis. É como uma agulha no palheiro. O excesso diminuiu a fidelidade do leitor. Olha, dentro do que eu conceituo como zine, ser impresso é uma condição primeira. É a característica principal é a questão tátil. Sim, existem muitos sites e blogs com o mesmo espírito e atitude dos zines. Mas não são zines, pois a plataforma é outra. Logo, podem chamar de sites, blogs, e-zines, zines virtuais, mas nunca apenas zine. E isso não é uma questão se segregação, como alguns podem achar, é uma questão apenas de conceito.

Há pessoas que ao defender o zine impresso, argumentam que o processo era muito mais independente e puro. Hoje em dia, quem produz na internet quase sempre tem que se vincular à divulgação do google, facebook, youtube e outros gigantes. Por outro lado, se optar por ser apenas analógico, ficará com uma divulgação bem restrita. Como você vê essa questão? Você já percebeu esse questionamento em alguns fanzineiros?

Quero deixar bem claro que não sou conivente a essa essa opinião de “mais independente e puro”. Acho que esse critério só pode ser avaliado em relação ao conteúdo desses materiais e/ou postura de seus respectivos editores. Não gosto de fazer esse tipo de comparação, pois acho que isso já é um discurso superado. Quer saber o porquê? Não pense que o zine impresso não dependa da plataforma virtual para se divulgar. Depende muuuuito! Logo, esse é um dos exemplos de como o impresso e virtual podem conviverem juntos. No ano passado lancei 12 zines e 99% da divulgação deles foi feita de forma virtual, com e-flyers por e-mail, redes sociais e até por WhatsApp. E esse exemplo não cabe só a mim, todos os zineiros usam dessa estratégia, creio que ninguém se arrisca em divulgação apenas analógica hoje em dia. Aderir a isso, além de ser um retrocesso, é impedir que mais pessoas conheçam seu trabalho.

O livro é uma pesquisa bem completa. A que tipo de público você recomendaria a leitura?

Obrigado pelo apontamento. Foram oito anos de pesquisa independente e autônoma, fazendo da minha forma, do meu jeito, no meu ritmo. Feito com a única intenção de ajudar a suprir uma lacuna de livros sobre o assunto no Brasil. Eu indicaria “O Universo Paralelo dos Zines” para quem está pesquisando sobre o assunto, zineiros dessa geração e das antigas, curiosos, educadores e para pessoas que têm interesse de sair da rotina e fazer algo diferente.

Márcio Sno 1 - Foto Felipe Sousa

Você vai manter a pesquisa sobre o tema? Virá algum filme novo ou livro?

Quando eu lancei o livro, em maio de 2015, falei que meus serviços para o fanzinato nacional já estavam completos e que já poderia morrer feliz. Mas a gente nunca sabe o que está por vir, né? Filme não quero mais. Dá muito trabalho e há muita cobrança das pessoas e isso me enche muito o saco. Não tenho mais paciência. Livro, eu gostaria de lançar um sobre Oficinas de Zines, que já tenho 10 anos de experiência e creio que acumulei muito conhecimento e preciso passar isso adiante. Mas é um plano meio a longo prazo. Talvez lance em formato de zine. Ou melhor, de metazine, ou seja, um zine falando sobre zines. Nesse caso, mais especificamente, um zine sobre oficinas de zines.

Há novidades para 2016?

Em meu segundo ano como autônomo, estou indo com calma, pois preciso ter algumas certezas financeiras para poder dar conta de meus projetos. Porém, tenho, além do metazine, um pequeno romance sobre um período da minha vida, um zine sobre o Odair José (a exemplo do ZineVon) e quero muito retomar um zine de cultura pop na linha do Arreia!, que lancei entre 2005 e 2006. Também vou dar uma reestruturada na minha lojinha de livros, zines e afins, continuar com as oficinas de zines e também preparo oficinas com outros conteúdos além dos zines.

Links relacionados

  • Páginas no Facebook:

O Universo Paralelo dos Zines: www.facebook.com/ouniversoparalelodoszines

Fanzineiros do Século Passado: www.facebook.com/fanzineirosdoseculopassado

Márcio Sno Produções: www.facebook.com/marciosnoprod

  • Capítulos da série de documentários Fanzineiros do Século Passado no Vimeo:

Capítulo 1 : https://vimeo.com/19998552

Capítulo 2: https://vimeo.com/41393497

Capítulo 3: https://vimeo.com/67697733

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