“Nossos Amigos e os Lugares que Visitamos” da El Toro Fuerte é sobre afeto em tempos difíceis

Por Alan Bonner (@bonnerzin)

A partir de hoje, toda sexta, o Canal RIFF trará a “Próxima da Fila”, uma coluna sobre os próximos grandes artistas/bandas nacionais. Na estreia, a banda mineira El Toro Fuerte.

O que leva uma banda independente e desconhecida até mesmo de parte do público de seu nicho a rodar boa parte do pais? Não há investimento de gravadora, apoio de selo, grana própria para investir e a tal “cena” se preocupa cada vez mais em falar mal de si mesma e menos em se ajudar. Alguém precisa bancar esse rolê em cada cidade, fornecendo estrutura para o show, teto, comida, cachê e um mínimo de orientação de como chegar e ir embora. Este alguém, portanto, precisa gostar do que essa banda faz e/ou de seus membros. Afinal, se tudo der errado, pelo menos vai ficar a satisfação de ter visto uma banda ou uma pessoa querida.

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El Toro Fuerte (da esq. para a dir.: João Carvalho, Fábio de Carvalho, Diego Soares e Gabriel Martins). Foto: Vitor Jabour

É na base do afeto que bandas como a El Toro Fuerte conseguem se manter logisticamente e desbravar a dor e a delícia de se fazer música no Brasil. Iniciada em Belo Horizonte no ano de 2015 e formada na época por Diego Soares (baixo/guitarra/voz), Gabriel Martins (bateria) e João Carvalho (baixo/guitarra/voz) a banda lançou seu debut “Um Tempo Lindo para Estar Vivo” em 2016, se tornando rapidamente uma das caras da estética multifacetada que, de forma bem humorada, foi denominada como rock triste. Rótulos a parte, a banda entregou um primeiro trabalho coeso e competente, apresentando sua identidade firmada no emo e no math rock e repleto de elementos experimentais e de música brasileira.

Olha que capa linda!

Os três anos que se passaram até o presente da banda trouxeram as glórias que um disco localmente aclamado pode proporcionar a uma banda independente: o primeiro show fora da cidade natal, a primeira casa cheia, a primeira invasão de palco pelos fãs. Logo vieram uma turnê no Nordeste, datas pelo Centro-Oeste e a coroação do primeiro disco no maior festival de música independente do país, o Bananada (GO) e a entrada de um novo membro, o jovem Fábio de Carvalho. O primeiro disco fez a banda rodar bastante, e logo era a hora de voltar para Belo Horizonte e começar a projetar o futuro da banda, o que significava um novo disco.

Essa volta foi um período complicado para os membros da Toro. Desentendimentos, perda de pessoas queridas, planejamentos que não deram certo e a pressão de gravar um disco no meio disso tudo. Mas, tal qual Frank Ocean, a banda fez valer a espera. No fim de janeiro de 2019, era vazado lançado o aguardado “Nossos Amigos e os Lugares que Visitamos”. Um disco que dá pra ver o suor escorrendo e a testa brilhosa só de ver a tracklist. São 13 músicas com uma duração total de quase uma hora. É trabalhoso (e caro!) fazer um disco deste tamanho em estúdio, com aluguel de piano, despesas e logística de gravação de videoclipe e das participações especiais, fora o trabalho e custo de mixagem e masterização (feitas brilhantemente por Fernando Bones e João Carvalho). E se ter uma banda hoje em dia é pensar como uma empresa, o NALV é um investimento daqueles de muito valor.

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Olha que capa linda [2]!

E a riqueza do disco é perceptível em cada uma de suas nuances. A incorporação de novas influências do pós-punk e do hip hop agregou ainda mais a sonoridade inventiva do agora quarteto. Os letristas da banda trazem temáticas diversas ao disco, mas que se conversam na questão do afeto, sempre ele. Desde a relação com uma pessoa que já foi muito importante e que atualmente não é mais, passando pelo sofrimento do fim de um relacionamento até declarações explícitas de amor aos amigos e parceiros. O afeto presente nas letras é cíclico, pois a banda o recebe de volta dos fãs, fiéis e barulhentos nos shows e nas redes sociais.

A entrada de Fábio de Carvalho como compositor da banda trouxe o seu estilo particular de composição e, de forma simbiótica, criou algo diferente do que artista e banda apresentavam em separado. Ouça “Aniversários São Difíceis” para entender. João Carvalho é responsável, como de costume, pelos momentos mais surpreendentes da obra, principalmente pelos elementos eletrônicos incorporados em suas canções. Ouça “Hidra” para entender. Diego Soares parece ter a fórmula de compor hits em seu nicho, e fez as canções que batem mais fácil no disco. Ouça “Santa Mônica” para entender. E as linhas de bateria de Gabriel Martins são o destaque maior em um disco que acertou em quase tudo que se propôs a entregar. Preste atenção no que esse rapaz, que já pode ser considerado um dos bateristas mais criativos do país, fez durante todo o disco.


“Nossos Amigos e os Lugares que Visitamos” é um disco dialeticamente denso e leve, em todos seus aspectos. Tem um fator de replay ilimitado pela diversidade de mensagens contidas nas letras e a complexidade dos arranjos, mas bem fácil de ouvir por e de se deixar levar pelas melodias carismáticas e pelas mensagens empáticas. Um disco pra ouvir por meses, até o fim do ano, onde ele será devidamente consagrado na lista dos melhores de 2019.

Ouça El Toro Fuerte

YouTube: https://www.youtube.com/channel/UCa-nHNsuYzMmaEsc8rn7kVA

Spotify: https://open.spotify.com/artist/2YElQs97LTX6gn5Td89FaQ

Bandcamp: https://eltorofuerte.bandcamp.com/

Deezer: https://www.deezer.com/br/artist/10094068

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