Resenha: Tiago Iorc leva ‘Troco Likes’ aos cinemas

Por Natalia Salvador | @_salvadorna 

O quarto CD da carreira de Tiago Iorc, ‘Troco Likes’, vem mostrando para o público uma nova fase do artista. Com letras em português, o cantor afirmou, em diversas entrevistas, o desejo de se aproximar dos fãs brasileiros. No filme, Tiago explica essa necessidade de se sentir em casa no seu país e, fazendo um gancho ao nome do disco, em estar conectado com as pessoas daqui. Não podia ter dado mais certo.

Carregado de significados, Troco Likes trás em suas letras e melodias todo esse querer de ser gostado. E parece que os brasileiros tornaram a vontade do cantor realidade. Depois de rodar o país inteiro em 2015 e se apresentar em diferentes cidades, Tiago decidiu fazer um registro dessa nova fase de sua carreira. Escolheu Belém para ser protagonista de seu filme por motivos pessoais e, cá entre nós, de estética, já que o Teatro Gasômetro encaixou perfeitamente para esse novo desafio.

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Filmado todo em plano sequência – um show a parte para quem gosta de cinema e fotografia – Troco Likes ao vivo é uma experiência. Quem assiste consegue se sentir literalmente no meio do show, aquele convidado especial e com visão mais que privilegiada. Com uma excelente produção, repertório todo em português e muito talento, Tiago segue o filme com uma narrativa emocionante e um show apenas voz e violão – como costumam ser a maioria de suas apresentações.

E mesmo os saudosistas, que insistem em dizer que bom mesmo era Tiago Iorc cantando em inglês, se rendem à sua poesia e irreverência. Com direção do próprio brasiliense e produção em parceria com Felipe Simas, o filme é um lindo registro do grande sucesso pop que é Tiago. Eu não posso afirmar quanto aos outros telespectadores, mas eu amei te ver!

Resenha: Vitor Brauer, Ludovic e Enema Noise @Stranjas Club

Por Tayane Sampaio (texto e fotos) | @Tayanewho

O aclamado álbum “Idioma Morto” (2006), da Ludovic, completou 10 anos e alguns fãs tiveram a sorte de comemorar a data com um show da banda, que encerrou as atividades em 2008. Os paulistanos, respeitados na cena underground, passaram por Brasília, na última sexta-feira (23), e incendiaram o Stranjas Club.

Com aproximadamente duas horas de atraso, o evento começou com a apresentação de Vitor Brauer. O mineiro utilizou apenas voz, violão e alguns pedais em seu set. A “falta” de instrumentos não chega a ser percebida, pois a inquietude de Brauer, que toma vida por meio de sua voz, é a sua carta na manga. Vitor tem uma característica que me encanta e que é escassa: ele não permite que sua obra seja rotulada. Ele canta rap, recita poesia, faz música eletrônica e mais um monte de coisa, tudo junto e sem que o conjunto perca o sentido.

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Vitor Brauer @2016

Seja com as músicas da Lupe de Lupe, do supergrupo Xóõ, ou de seu projeto solo, o músico canta palavras de uma sinceridade que poucos se atreveriam a dizer em voz alta. As canções, muitas vezes, parecem confissões que o vocalista compartilha com a plateia, como em “17”: “Eu só pensava em morrer quando eu morava em Valadares/Embora eu já nem saiba dizer qual desses lugares que me dói mais/Porque hoje eu vivo tão sozinho”. A forma crua e autêntica que o cantor despeja suas indagações faz com que o público queira unir-se ao seu discurso. Mesmo com a letra complexa e o ritmo acelerado, tinha gente que recitava cada palavra dos versos de “Eu Já Venci”, junto com Vitor.

Agora, com algumas pessoas a mais, as cadeiras deram lugar a pernas ansiosas, que andavam sem sair do lugar, enquanto a Ludovic arrumava seus instrumentos. Jair Naves (voz e baixo), Rodrigo Monttorso (bateria), Eduardo Praça (guitarra) e Zeek Underwood (guitarra) deram início ao show com a poderosa “Atrofiando/Recém-Convertido/Ex-Futuro Diplomata”, primeira faixa do aniversariante “Idioma Morto”. Além das canções do derradeiro álbum, a Ludovic também tocou músicas do primogênito “Servil” (2004).

O grupo surpreende pela energia e entrega durante toda a apresentação. Jair, com sua voz potente, ora suave, ora aos gritos, comanda o coro formado pelo incansável público. O espaço apertado também não foi empecilho para os pulos animados de Zeek e a movimentação de Eduardo. Rodrigo, que não fazia parte da formação original, em nenhum momento fica para trás e mostra bastante entrosamento com os companheiros.

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Ludovic @2016

Mais de uma vez, Jair dividiu seu microfone e o palco com os fãs, que se entregaram à performance tanto quanto a banda. As letras e guitarras raivosas foram a ponte da bonita conexão entre o público e os músicos, que compartilharam esse momento especial. “Eu queria todas as luzes acesas, eu quero ver vocês. A gente precisa ver vocês”, pediu Jair Naves, mais de uma vez.

Nesses meus muitos anos frequentando shows, poucas vezes vi uma apresentação tão visceral. O vocalista se enfia no meio do público, que dança, bate cabeça, canta, grita, transpira junto. Mesmo antes de acabar, a nostalgia tomou conta de mim e ficou a vontade de, um dia, poder viver aquilo de novo. O ato final foi um abraço dos fãs na banda, literalmente. Um emaranhado de gente rodeando os músicos.

Após a emocionante apresentação da Ludovic, foi a vez da Enema Noise tocar. Os brasilienses, que lançaram o EP homônimo no começo do ano, honram o nome da banda com uma sonoridade barulhenta, meio torta, um post-hardcore-punk, que foge da obviedade.

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Enema Noise @2016

Rafael Lamim (voz e guitarra), Daniel Freire (voz e bateria), Murilo Barros (guitarra) e João Victor (baixo) tocam com entusiasmo e entregam uma apresentação que, no mínimo, desperta a curiosidade de quem ainda não os conhece. Quando não estava soltando gritos rasgados no microfone, o vocalista caminhava de um lado para o outro com sua guitarra, que insistia em se soltar da correia. As vozes também ficam por conta de Daniel, que alterna entre o microfone e a bateria. Os dois se dividem entre vozes mais melódicas e screamos. Essa combinação dá muito certo e chama atenção, como em “Azarnoazar”, que, mais para o fim, é tomada por guitarras distorcidas. O comportamento elétrico dos dois se contrapõe à performance mais introspectiva de Murilo e João.

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Como em todo evento underground, tinha CD’s e camisetas à venda, nas banquinhas de merch. Além disso, em uma outra mesa, você encontrava uma boa variedade de zines, muitos com temática feminista. O salão, no subsolo do Stranjas, que já recebeu bandas como E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante (SP) e Desventura (MG), tem tudo para se firmar como um grande ponto de encontro do underground brasiliense.

Resenha: As muitas participações especiais em “Rogério”, do Supercombo

Por Felipe Sousa | @Felipdsousa

Surgida em Vitória–ES e consolidada em São Paulo, a Supercombo é uma daquelas bandas difíceis de cravar um estilo, e como sugere seu nome, é formada por diversas vibes e influências com seus músicos. Léo Ramos (Voz e guitarra), Pedro Ramos (Guitarra e voz), Carol Navarro (Baixo e voz), Paulo Vaz (Teclado e efeitos) e Raul de Paula (Bateria) estão na ativa desde 2007, e hoje em 2016 aparecem como uma das grandes bandas do novo cenário do rock nacional, já tendo se apresentando inclusive em grandes eventos como no Lollapalooza e no Planeta Atlântida.

No final de Julho o quinteto lançou seu quarto álbum de estúdio intitulado Rogério, que deixou um pouco pra trás o indie rock convencional do seu antecessor Amianto e deu vez a uma grande mistura de elementos, gêneros e peso nas guitarras. Se por um lado, no entanto, Amianto foi o marco do amadurecimento da banda, com letras extremamente elaboradas, harmonias imprevisíveis levando a banda ao patamar de banda das mais relevantes da nova geração, Rogério chega pra consolidar ainda mais isso.

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A começar pelo seu nome, Rogério, já desperta a curiosidade em saber quem seria esse sujeito. E aos poucos o álbum vai nos mostrando que Rogério seria a personificação de uma junção de diversos sentimentos, especificamente, como Léo já falou, ele seria aquele lado ruim de cada pessoa. E assim podemos esperar grandes composições mais uma vez.

Cheio de grandes participações, o álbum começa com “Magaiver” com melodia e refrão bastante marcantes, especialmente pela voz da baixista Carol Navarro cantando letras que já mostram os dilemas um tanto existencialistas propostos. A música conta ainda com os irmãos Keops e Raony da banda Medulla cantando um rap no final.

A Piscina e o Karma”, segunda música, conta com a participação de Emmily Barreto vocalista do Far From Alaska. E com uma levada reggae e timbres bem dramáticos cadenciando com pesos nas guitarras e berros, o duo manda ver em um clima bem tenso.

Bonsai” aparece cheio de autocríticas, bem existencialistas, com riffs animais e cheia de peso. Essa música, inclusive, foi muito bem recebida pelo público, e embora a banda não confirme hoje ela aparece como uma das favoritas a se tornar single.

Grão de Areia” vem cheio de intensidade, uma bateria ditando o ritmo com contratempos muito bem elaborados e com um refrão marcado pela voz de Gustavo Bertoni da banda Scalene.

Em uma harmonia mais densa “Monstros” possibilita uma interpretação vocal que remete à vibe do disco anterior, cheio de melodrama, e Mauro Henrique do Oficina G3 explora bem isso e usa muito bem sua voz potente.

Depois de “Embrulho” e “Morar”, Supercombo recebe Lucas Silveira da banda Fresno e tocam “Bomba Relógio”, música bem melódica e que tratam de forma bem sádica o tal Rogério. Na mesma levada aparece “Jovem”.

O gigante Sergio Britto do Titãs chega com um rock and roll cheio de dramaticidade em ”Eutanásia”. Continuando com as criticas do álbum, essa música desvenda ainda mais o personagem principal e esse ganha ainda mais sentido. Logo em seguida o personagem principal aparece e “Rogério” detona na letra.

O álbum fecha com “Lentes” e a bela voz de Negra Li. Um trabalho incrível com os violões, ainda com uma vibe de distorção nas demais cordas e uma letra que te faz querer ouvi o disco todo de novo.

A Supercombo depois de entrar na realidade paralela do Superstar e mandar muito bem por lá, voltou ao mundo real e assimilou bem o que tinha que fazer pra despontar. Não é por menos que Amianto teve uma turnê com mais de 120 shows e seu single “Piloto Automático” foi a segunda música mais compartilhada no Spotify em 2014. Agora com Rogério a banda deve trazer muita novidade aos fãs, contando com nova tour, lançamentos de lyrics videos, novo single.

É um baita lançamento nacional. É uma baita banda. Pode contar que a Supercombo de levar muita gente aos shows e às plataformas de streaming para ouvir as tantas reflexões do álbum.