RESENHA: Rolling Stones, a esperança da humanidade

Por Guilherme Schneider | @jedyte

Ontem foi (literalmente) o maior dia do ano. Dia de show dos Rolling Stones no Brasil, na abertura da Olé Tour no Rio de Janeiro. Um dia tão mágico, que permitiu até mesmo o tempo voltar – com o fim do horário de verão, é bem verdade. Mas que parecia uma dádiva dos deuses do rock’n’roll, ah, parecia sim. Nada menos que 66 mil pessoas lotaram o Maracanã na noite de sábado (20).

Essa foi apenas a quarta vez dos Stones no Brasil. A banda veio para cá pela primeira vez em 1995, durante a Voodoo Lounge Tour. Três noites em São Paulo e duas no Rio. Em 1998 a Bridges To Babylon Tour passou apenas uma noite em cada capital.

A última vez em solo brazuca completou na última quinta-feira uma década. O lendário show gratuito para 1,5 milhão de pessoas na Praia de Copacabana foi no dia 18 de fevereiro de 2006, durante a A Bigger Bang Tour. Pra mim, que estive dez anos atrás, o show de ontem foi muito melhor, com mais estrutura, som e hits.

Brazilian fans attend to a concert of the rock band The Rolling Stones during their Ole tour at Maracana stadium in Rio de Janeiro, Brazil, on February 20, 2016. AFP PHOTO/VANDERLEI ALMEIDA / AFP / VANDERLEI ALMEIDA (Photo credit should read VANDERLEI ALMEIDA/AFP/Getty Images)

Última vez do bivôs?

A cada show dos Rolling Stones alguém levanta a questão: “Seria esta a última vez deles aqui no Brasil?”. Não é pra menos.

Sem dúvidas os Stones são a banda de maior sucesso na história, e que continua com sua formação mais tradicional. Na ativa desde julho de 1962 (há 53 anos), os Stones ainda mostram nos palco o tesão pela música dos novatos.

E, a cada rebolada do setentão Mick Jagger no palco a fé em um futuro melhor aumentava.

Envelhecer assusta muita gente. Ainda mais fãs do rock’n’roll das antigas, que ainda estão sob os lutos recentes de nomes com David Bowie e Lemmy Kilmister.

Em cinco meses Mick Jagger completará 73 anos de idade. O inglês tem tudo para superar com louvor os 78,2 anos de expectativa de vida de seus conterrâneos. Se der tudo certo, seus próximos aniversários serão comemorados no palco.

Quem viu o show da atual turnê percebe que a banda continua com muito gás. A impressão que dá é que não buscarão um “momento ideal para parar”, e sim que tocarão até morrer. No duro.

Esse talvez seja o grande sonho da humanidade: envelhecer bem, com pique, saúde, criatividade, vigor e prosperidade. Ver Jagger, Richards, Wood e Watts juntos renova essa esperança. É um olhar para o futuro ideal projetado de cada um – e não um olhar apenas para o passado.

Difícil imaginar como aquele rock star que se move com suavidade e força já é um bisavô. Jagger tem sete filhos (incluindo o brasileiro Lucas, filho da apresentadora Luciana Gimenez), cinco netos e uma bisneta.

O show – e que show!

Ah, então, vamos ao show. O Maracanã sofreu com os temporais que tem transbordado as tardes de verão no Rio. Choveu muito mesmo durante as bandas de abertura, Dr. Pheabes e Ultraje a Rigor. Prêmio de consolação de quem (assim como eu) ficou na arquibancada, de ingresso mais barato do que as pistas. Ingressos que custavam até R$ 900 (ou R$ 990 com a cruel taxa de “conveniência”). Diante deste cenário não era de se estranhar que a cerveja custasse R$ 10 – ao menos vinha acompanhada de uma estiloso copo-souvenir.

A pontualidade britânica foi afetada pelo tal temporal: foram 20 minutos de atraso, até que o telão a direita do palco pegasse no tranco. Aliás, diga-se passagem, que belos telões! Os três ajudaram um bocado quem estava mais longe do palco.

Rolling Stones Rio de Janeiro 2016 Olé Tour Maracanã

A banda entrou no palco pra mostrar todo o seu poderio. A abertura perfeita de qualquer show: Start Me Up, levando o público de todas as idades ao delírio, logo emendada com a deliciosa It’s Only Rock’n’Roll (But I Like It). Que hino!

O show seguiu com um comunicativo Mick Jagger, falando em bom português. Foram de Tumbling Dice e Out of Control, antes da “música da enquete”. Medida muito legal da banda, que durante essa turnê abre uma votação para o público escolher uma música. Entre as quatro opções apresentadas na enquete carioca, o cover de Like a Rolling Stone (do Bob Dylan) foi a mais votada entre Live With Me,  All Down The Line e Shattered – ainda bem!

Doom and Gloom, a música mais recente do repertório (de 2012), antecedeu a balada Angie – tão relembrada após a morte de Bowie. E que boa surpresa, já que foi tocada em raros shows dessa turnê. A Olé Tour tem registrado sets que variam entre 18 e 19 músicas (como foi no Rio – com quase 2 horas e 20 minutos de show).

Particularmente o grande momento foi a sequência de Paint It Black e Honky Tonk Women. Fico imaginando como peso dos acordes excêntricos de Paint It Black devem ter influenciados uma penca de bandas de metal. Ao final de Honky Tonk Women Jagger apresentou a banda toda, e os fã puderem agradecer com gritos e aplausos os geniais Charlie Watts, Ron Wood e Keith Richards pelos serviços prestados.

Richards, um deus da guitarra, ficou no palco arranhando gírias e palavrões em português (bem, não tão surreais como o “calor pra caralho” e “tá favorável” desferidos pela língua feroz de Jagger) antes de seu momento no vocal, com You Got the Silver e Before They Make Me Run. O clima de blues continuou com o retorno de Jagger ao palco, em Midnight Rambler.

Daí pra frente foi só hits do tamanho de estádios de futebol. Miss You, Gimme Shelter, Brown Sugar, Sympathy for the Devil e Jumpin’ Jack Flash. Não tem nem muito o que dizer dessa sequência absurdamente genial. O supra sumo do rock clássico tá aí.

Que noite no Maracanã! #RollingStones de volta ao Rio de Janeiro depois de uma década.

Um vídeo publicado por Canal Riff (@canalriff) em Fev 20, 2016 às 7:36 PST

 

Destaque merecido para a banda de apoio e a dupla de backing vocals. Bernard Fowler e Sasha Allen, que brilhou do The Voice norte-americano de dois anos atrás, mandou muito bem no duo de Gimme Shelter. E o baixo de Darryl Jones novamente foi de altíssimo nível.

Pausa para o bis, e os Stones voltam com a companhia do Coral da PUC, que introduz a linda You Can’t Always Get What You Want. Pra fechar? Provavelmente o maior riff da história da música: (I Can’t Get No) Satisfaction. Pra aplaudir de pé (e tinha como não ficar de pé?). Os Stones deixaram o palco ovacionados, com o sempre focado batera Charlie Watts enrolado na bandeira brasileira.

Às vezes na vida você é obrigado a tomar decisões. Escolher lados, times, posicionamentos… a sociedade sempre tenta impor dicotomias. Bom, depois desse segundo show dos Stones que presenciei ao vivo… não tenho com ter dúvidas naquela cretina pergunta: “Beatles ou Rolling Stones?”. :p

E tem mais Stones no Brasil pelos próximos 10 dias (prato cheio para os sites de fofocas também). A banda segue para dois shows em São Paulo, no Morumbi. Na próxima quarta-feira (24) e sábado (27). A turnê brasileira termina dia 2 de março, no Beira Rio, em Porto Alegre. Tá na dúvida em ir em algum desses? Não pense duas vezes!

Crédito das fotos: Vanderlei Almeida/AFP/Getty Images

setlist

  1. Start Me Up
  2. It’s Only Rock ‘n’ Roll (But I Like It)
  3. Tumbling Dice
  4. Out of Control
  5. Like a Rolling Stone (cover de Bob Dylan)
  6. Doom and Gloom
  7. Angie
  8. Paint It Black
  9. Honky Tonk Women
  10. You Got the Silver
  11. Before They Make Me Run
  12. Midnight Rambler
  13. Miss You
  14. Gimme Shelter
  15. Brown Sugar
  16. Sympathy for the Devil
  17. Jumpin’ Jack Flash
    Bis:
  18. You Can’t Always Get What You Want
  19. (I Can’t Get No) Satisfaction

Entrevista: A saga fanzineira de Márcio Sno

Por Ricardo Caulfield

A internet não acabou com os fanzines. Os corajosos resistem, dedicando às suas paixões, como rock, games ou hqs, tempo para imprimir os seus jornais, muitas vezes em tiragens artesanais. Márcio Sno, também zineiro de longa data, já lançou três documentários sobre tema e colocou no mercado, em 2015, mais um valioso instrumento para os pesquisadores sobre o assunto: o livro “O universo paralelo dos zines”. Ele conversou conosco sobre o livro, os docs e projetos para 2016!

Capa versão final

Depois dos documentários, escrever um livro sobre o tema é uma proposta arrojada. Como surgiu a ideia?

Na verdade, a escrita do livro veio antes dos documentários. Iniciei uma pesquisa independente a partir de 2005, quando lancei a cartilha “Fanzines de Papel”. Passei então a ficar fissurado por tudo que falasse sobre zines: livros (nacionais e importados), artigos, monografias e, em um momento, achei diversos documentários gringos sobre o assunto. Aí passei a procurar algum que falasse essencialmente sobre zines e não achei (mais tarde descobri que havia um) então, entrei em pânico: como assim não tinha documentários sobre zines no Brasil? Peguei uma filmadora emprestada e saí entrevistando zineiros do Brasil todo, com a ajuda de alguns amigos. Nesse meio tempo, continuei a pesquisa, mas só retomei a escrita em 2013, assim que lancei o último capítulo do Fanzineiros do Século Passado (nome da série de docs). Não diria que é uma proposta arrojada, foi tudo feito de forma intuitiva e descompromissada. As coisas fluíram naturalmente e eu apenas coordenei os pensamentos e fatos.

Você acha que, de alguma forma, o livro O universo paralelo dos zines e os filmes da série Fanzineiros do Século Passado se complementam?

Creio que sim. Embora eu tenha adotado um tipo de escrita na linha “bate papo no boteco”, creio que livro seja mais a teoria e os documentários sejam a história em carne e osso, contada por quem, de fato, entende do assunto: os zineiros. No livro, sou eu falando sobre o assunto e nos documentários, são os zineiros os porta-vozes. Curiosamente, não utilizei nada dos depoimentos dos docs no livro, exceto a frase de Elydio dos Santos Neto que abre o impresso.

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Na estreia, o doc conta um pouco sobre os zineiros antigos e como era produzir em uma realidade analógica pré-internet.

Como você começou a se interessar pelo universo dos fanzines?

Essa minha história com os zines já tem mais de 22 anos. Foi numa época que eu tinha contato com muitas bandas independentes e descobri. meio que sem querer, os zines em uma seção da revista Rock Brigade. Assim que os zines caíram em minhas mãos, foi automático: passei a produzir! Mas nesse meio tempo atuei em diversas frentes com os zines: zineiro, pesquisador, oficineiro e ainda dou assessoria para pessoas que pesquisam sobre o assunto.

Você acredita que muitos zines impressos ainda são produzidos nos dias de hoje?

Não só acredito, como recebo, troco e adquiro muitos zines hoje! Não dá para se comparar com a quantidade que tínhamos antes da chegada da internet, em meados dos anos 1990, mas temos um número bastante considerável de publicações circulando. A exemplo disso é só perceber a quantidade de feiras de publicações independente que rolam pelo Brasil e a quantidade de expositores que temos nessas feiras. O zine mudou, evoluiu, se transformou, chegando ao ponto de ficar até difícil de se conceituar um zine de uma outra publicação.

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Nesse capítulo mostra a importância dos zines para as bandas de rock independente até meados dos anos 90 e também as diversas iniciativas para estimular a produção impressa.

Qual foi a maior dificuldade para desenvolver o projeto do livro?

O atraso para o lançamento. Fechei o texto em 2013, pois havia uma expectativa de eu ser demitido do emprego e, com parte da indenização, lançaria o livro. Fui iludido com falsas promessas e, com isso, tive que adiar um ano o lançamento (só consegui ser demitido em dezembro de 2014). Porém, o espaço entre ter a grana na mão e o lançamento foi muito rápido, graças à incrível sintonia que eu a minha editora, Ana Basaglia (Editora Timo, que lançou o livro), que fez um excelente trabalho.

Uma inevitável questão é sobre o convívio entre publicações impressas e digitais. Alguns fanzineiros de ontem agora se dedicam a blogs…

Então, isso, na verdade, foi um boom. E tudo que explode, depois assenta. Os zineiros acharam na internet uma possibilidade mais barata para publicar suas coisas, lembrando que em meados dos anos 1990 tudo era muito difícil: as taxas eram caras, a “xerox” era vagabunda e tudo era muito mais lento. A internet então era uma salvação. Hoje há menos blogs ativos do que há 5, 10 anos, pois as redes sociais já dão conta. Eu mesmo não uso meu blog há anos, o que tenho que publicar, comentar etc e tal, eu boto no Facebook em álbuns de fotos, que transformei em postagens. O acesso é mais fácil e, consequentemente, há mais pessoas que acompanham o que ando fazendo. Eu nunca assumi um discurso de que o virtual vai matar o impresso ou o impresso é melhor que o virtual: cada um tem seus prós e contras, que não dá pra comparar. Posso te listar um monte de coisas. Tanto que no meu livro, eu preferi chamar o capítulo sobre o assunto de “Zines E Internet” e não “Zines X Internet”, mesmo porque acho esse discurso meio vazio hoje em dia, pois você pode muito bem trabalhar um a favor do outro.

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No último capítulo, é abordado o uso dos zines em sala de aula, como objeto de pesquisa, a influência deles na vida dos zineiros e uma pequena discussão sobre o futuro dos zines.

Por outro lado, na internet existe um manancial grande de oferta de sites e blogs, etc, então a concorrência é enorme e a pessoa fica à mercê de ser encontrada. Já com o zine impresso, o leitor recebe nas mãos… Ser impresso é uma condição para ser fanzine?

Pois é, creio que é essa infinidade de ofertas que está tornando os blogs menos acessíveis. É como uma agulha no palheiro. O excesso diminuiu a fidelidade do leitor. Olha, dentro do que eu conceituo como zine, ser impresso é uma condição primeira. É a característica principal é a questão tátil. Sim, existem muitos sites e blogs com o mesmo espírito e atitude dos zines. Mas não são zines, pois a plataforma é outra. Logo, podem chamar de sites, blogs, e-zines, zines virtuais, mas nunca apenas zine. E isso não é uma questão se segregação, como alguns podem achar, é uma questão apenas de conceito.

Há pessoas que ao defender o zine impresso, argumentam que o processo era muito mais independente e puro. Hoje em dia, quem produz na internet quase sempre tem que se vincular à divulgação do google, facebook, youtube e outros gigantes. Por outro lado, se optar por ser apenas analógico, ficará com uma divulgação bem restrita. Como você vê essa questão? Você já percebeu esse questionamento em alguns fanzineiros?

Quero deixar bem claro que não sou conivente a essa essa opinião de “mais independente e puro”. Acho que esse critério só pode ser avaliado em relação ao conteúdo desses materiais e/ou postura de seus respectivos editores. Não gosto de fazer esse tipo de comparação, pois acho que isso já é um discurso superado. Quer saber o porquê? Não pense que o zine impresso não dependa da plataforma virtual para se divulgar. Depende muuuuito! Logo, esse é um dos exemplos de como o impresso e virtual podem conviverem juntos. No ano passado lancei 12 zines e 99% da divulgação deles foi feita de forma virtual, com e-flyers por e-mail, redes sociais e até por WhatsApp. E esse exemplo não cabe só a mim, todos os zineiros usam dessa estratégia, creio que ninguém se arrisca em divulgação apenas analógica hoje em dia. Aderir a isso, além de ser um retrocesso, é impedir que mais pessoas conheçam seu trabalho.

O livro é uma pesquisa bem completa. A que tipo de público você recomendaria a leitura?

Obrigado pelo apontamento. Foram oito anos de pesquisa independente e autônoma, fazendo da minha forma, do meu jeito, no meu ritmo. Feito com a única intenção de ajudar a suprir uma lacuna de livros sobre o assunto no Brasil. Eu indicaria “O Universo Paralelo dos Zines” para quem está pesquisando sobre o assunto, zineiros dessa geração e das antigas, curiosos, educadores e para pessoas que têm interesse de sair da rotina e fazer algo diferente.

Márcio Sno 1 - Foto Felipe Sousa

Você vai manter a pesquisa sobre o tema? Virá algum filme novo ou livro?

Quando eu lancei o livro, em maio de 2015, falei que meus serviços para o fanzinato nacional já estavam completos e que já poderia morrer feliz. Mas a gente nunca sabe o que está por vir, né? Filme não quero mais. Dá muito trabalho e há muita cobrança das pessoas e isso me enche muito o saco. Não tenho mais paciência. Livro, eu gostaria de lançar um sobre Oficinas de Zines, que já tenho 10 anos de experiência e creio que acumulei muito conhecimento e preciso passar isso adiante. Mas é um plano meio a longo prazo. Talvez lance em formato de zine. Ou melhor, de metazine, ou seja, um zine falando sobre zines. Nesse caso, mais especificamente, um zine sobre oficinas de zines.

Há novidades para 2016?

Em meu segundo ano como autônomo, estou indo com calma, pois preciso ter algumas certezas financeiras para poder dar conta de meus projetos. Porém, tenho, além do metazine, um pequeno romance sobre um período da minha vida, um zine sobre o Odair José (a exemplo do ZineVon) e quero muito retomar um zine de cultura pop na linha do Arreia!, que lancei entre 2005 e 2006. Também vou dar uma reestruturada na minha lojinha de livros, zines e afins, continuar com as oficinas de zines e também preparo oficinas com outros conteúdos além dos zines.

Links relacionados

  • Páginas no Facebook:

O Universo Paralelo dos Zines: www.facebook.com/ouniversoparalelodoszines

Fanzineiros do Século Passado: www.facebook.com/fanzineirosdoseculopassado

Márcio Sno Produções: www.facebook.com/marciosnoprod

  • Capítulos da série de documentários Fanzineiros do Século Passado no Vimeo:

Capítulo 1 : https://vimeo.com/19998552

Capítulo 2: https://vimeo.com/41393497

Capítulo 3: https://vimeo.com/67697733

Já temos um vencedor: Super Mario Bloco zera o carnaval 2016!

Por Guilherme Schneider | @jedyte

Todo carnaval tem seu fim. E, geralmente, ele é na quarta-feira de cinzas. Mas, como aqui no Brasil toda chance de se divertir um pouco é bem-vinda (e necessária), a verdade é que ninguém mais espera o sábado de carnaval para começar a folia – muito menos decreta o final na ressaquenta quarta. Especialmente aqui no Rio, onde a cidade já transpira a euforia dos blocos bem antes da largada oficial.

Até aí tudo dentro dos conformes para quem tem um coração não-amargo. A diferença neste 2016 é que, na minha humilde opinião, o carnaval já foi “zerado”. Afinal, o Super Mario Bloco desfilou de surpresa na quinta-feira anterior ao carnaval, dia 4 de fevereiro. Isso, aquele bloco que toca músicas do clássico game Mario Bros. Irretocável.

Menos é mais
Que o brasileiro tem mania de grandeza isso não é nenhuma novidade. Só ver os nomes de estádios, quase sempre no superlativo (mesmo que não faça sentido algum): Mineirão, Castelão, Machadão e até Moacyrzão (!). Os blocos de carnaval não ficam atrás. Se exalta muito os tradicionais Cordão do Bola Preta ou Simpatia É Quase Amor, geralmente contando o público de milhão pra cima. Porém, o Mario Bloco está (propositalmente) cada vez… menor. E isso é bom.

Apesar de ter sido anunciado oficialmente para sair na quarta-feira de cinzas, o bloco foi transferido em cima da hora, com um comunicado divulgado 24h antes. Tudo para fugir do tumulto. Infelizmente muito gente que adoraria conhecer (ou retornar) ao Mario Bloco não pôde – e está fazendo campanha para um improvável bis. Dia de semana é mesmo foda. Ainda mais com concentração marcada para o solzão carioca das 16h.

Quem conseguiu ir ao 5° ano do Mario Bloco não se arrependeu. Não faço ideia do número oficial, mas, deve ter girado em torno de uns 500 felizardos. Famílias, gringos, cosplayers, gente que nunca jogou Mario… sobretudo gente que seguiu aquela procissão naïf com um sorrisão no rosto. Carnaval é não ter vergonha de ser criança um pouquinho. Cogumelos, Princesas, Estrelas, Marios, Warios e Luigis que o digam.

‘Video Games Live’ Brazuca
Por não estar tão cheio como nos dois últimos anos, os foliões puderam ouvir o som de pertinho. Música de primeira, de uma big band de metais cada vez mais entrosada guiada por Marco Serragrande, o comandante do bloco. Marco toca em diversos coletivos musicais, mas fica evidente o xodó que tem pelo Mario Bloco.

moeda 8 bits
Uma singela moedinha 8 bits dava um charme extra

Mais do que folia carnavalesca esse foi um espetáculo completo, com atos (intencionais, certamente). Há coerência, começo, meio e fim. Que não deixa nada a dever para o Video Games Live. O trajeto nem foi dos maiores: o belíssimo Mirante do Rato Molhado até a Pracinha Odilo Costa Neto. Cara de Santa Teresa.

O único bloco gamer possível?
Para quem tem pavor da ideia de um bloco de carnaval, o Mario Bloco talvez seja o que mais próximo poderia mudar seus planos. Principalmente para a galera nerd/gamer – que já ganharam outros blocos (até maiores) pelo país. O som é instrumental do início ao fim, mas é permitido (claro) cantarolar os temas de Mario. Um convite irresistível para quem já perdeu horas e horas jogando com o herói da Nintendo.

O maior feriadão do ano no Brasil pode até terminar celebrando os grande blocos, desfiles do sambódromo e afins. O barato da democracia da alegria é essa mesmo: divirta-se onde quiser (mesmo em uma maratona Netflix em casa). Mas, tenho certeza que a genuína alegria gamer falou mais alto na última quinta.

E que a trupe de Super Mario Serragrande ganhe o mundo, cada vez mais. Vida longa ao som do Mario Bloco!